sexta-feira, 8 de maio de 2015

Devotamento e abnegação

“Dá de ti para os outros não somente o paletó que não usas, o sapato que não te serve, a calça que já não vestes, mas dá, também, o carinho, a ternura e o coração, de modo que não te devam obrigação" (André Luiz).

Devotamento e abnegação são duas virtudes pouco conhecidas e, como diríamos, pouco praticadas pela maioria dos irmãos encarnados, mesmo aqueles que professam algum credo religioso.

Sabemos todos nós que a doutrina libertadora, que ensina o homem como se aproximar de Deus tem como bandeira principal a caridade. Para praticar a caridade, o homem deve desenvolver dentro de si, uma grande dose de amor, esse sentimento que deve governar e organizar o relacionamento entre todos os seres encarnados. No entanto, amor e caridade não podem dispensar a dedicação e o desprendimento com que as pessoas devem se munir para ajudar o próximo, qualquer que seja o nível de suas necessidades.


A abnegação é indicativa daquilo que fazemos em favor de alguém, ou de alguma causa, sem interesse próprio, com esquecimento de nós mesmos, ou até com sacrifício do que possa nos pertencer.

Há alguns exemplos na História das Civilizações de criaturas abnegadas, que se dedicaram ao bem-estar do próximo, trabalhando de alguma forma para deixar aos homens uma contribuição marcante nas áreas do conhecimento, das descobertas científicas, das investigações, das religiões, dos direitos humanos, da moral, da caridade, etc. Por esse espírito de sacrifício próprio deixaram seus nomes aureolados de respeito e admiração. Na própria História do Brasil rendemos homenagens aos personagens cívicos que colocaram o interesse da nação brasileira acima dos seus e dos das elites da época.

É o que muito nos falta hoje: pureza de intenções, abnegação, sacrifício de interesses, renúncia a proveitos pessoais, amor às causas nobres, dedicação às criaturas na miséria, desprendimento dos valores materiais. Devemos reconhecer, também, que há inúmeros corações vivendo em silêncio dando extraordinários exemplos de abnegação, sem fazer qualquer menção ao que realizam, ou sem serem identificados publicamente.

A prática da abnegação concretiza o exercício da caridade, dever humano que não podemos dispensar de nossas obrigações. O benefício desinteressado é o único agradável a Deus. Quem presta sua ajuda aos pequeninos que nada têm, sabe de antemão que não receberá deles agradecimentos ou retribuições. Por essa razão os serviços dedicados aos mais carentes devem caracterizar a caridade autêntica.

Vejamos, em nossas atividades corriqueiras, algumas das muitas oportunidades que temos de praticar a abnegação:

a) Dedicando algumas horas do nosso lazer numa atividade assistência!;
b) Ministrando esclarecimentos evangélicos às criaturas em aprendizagem;
c) Oferecendo graciosamente os próprios serviços profissionais, onde possam ser mais úteis, aos que não os possam pagar;
d) Ensinando, sem interesse financeiro, os conhecimentos que detemos em quaisquer áreas;
e) Trabalhando no próprio lar, em algumas horas livres, na confecção de roupas e agasalhos para famílias carentes;
f) Contribuindo, com trabalho pessoal, no plantão vigilante a familiares ou amigos em convalescença;
g) Procurando conduzir o que realizarmos na esfera política ou social em benefício da maioria desprivilegiada, mesmo sacrificando interesses próprios;
h) Indagando sempre, em nossas deliberações administrativas, se estamos atendendo aos princípios de justiça, tolerância e bondade para com o próximo;
i) Pautando tudo que fizermos nas produções diárias dentro do ideal de perfeição, aprimorando sempre para o melhor ao nosso alcance.

Dedicar-se com desprendido amor a um trabalho em favor do próximo é devotamento. Assumindo uma tarefa, a valorizamos quando realizamos com dedicação, sem medir esforços ou sacrifícios, o que precisamos verificar em nossos compromissos de quaisquer espécies.

Seremos reconhecidos como verdadeiros cristãos, discípulos de Jesus, pelas boas obras que realizarmos, e, por mais insignificantes que elas possam ser aos olhos dos homens, revestem-se de maior valor espiritual pelo devotamento com que as produzirmos, isto é, com zelo, com sacrifício, com amor, com incansável dedicação.

Compreendemos que os primeiros passos na caridade, de início dados com certa relutância e até má vontade, com o transcorrer do tempo as nossas disposições de sentimentos vão refinando-se e progressivamente vão elevando-se, até chegarem nas desejadas expressões de devotamento.

Vale mencionar que iremos necessitar de um pouco de paciência para assim atingir a condição ideal na prática da caridade. Mas, o devotamento, de um modo geral, deve envolver tudo o que fizermos, e não apenas os serviços que dedicamos ao próximo. Será o apanágio das atividades dos homens no terceiro milênio. 

Qualquer atividade executada a contragosto é um verdadeiro martírio, e por isso mesmo é que ainda verificamos tanta gente produzindo pouco, atendendo com má vontade, respondendo aborrecidamente às ordens recebidas, desperdiçando o tempo em conversas particulares, justificando enganosamente as obrigações não cumpridas em tempo hábil, ocupando espaços do dia em serviços alheios ao seu trabalho, etc.

Podemos enumerar algumas situações comuns em que somos reclamados, pela nossa própria consciência, por faltar com o devotamento:

a) Nas indiferenças pelo que fazemos em nossas obrigações de trabalho;
b) No cansaço desgastante quando, disponíveis no serviço, nos omitimos em iniciativas de aumentar o próprio rendimento;
c) No desinteresse em aprender mais para produzir com mais eficiência;
d) No desleixo com objetos e utensílios dos quais nos servimos;
e) No descuido com deveres escolares que nos dizem respeito;
f) Na pressa ao atender criaturas às quais devemos nossa melhor atenção;
g) Nas omissões aos cuidados caseiros, desde as retificações de costumes junto aos filhos, aos aconselhamentos construtivos entre irmãos, cônjuges, pais;
h) No esquecimento da parcela de contribuição carinhosa aos irmãos menores;
i) Na falta de tempo para as atividades beneméritas que já assumimos.

Assim, dedicar-se de corpo e alma é fundamental para que o auxílio humanitário seja proporcionado com o máximo de carinho. Devotamento e abnegação sempre caminham juntos e estão sempre próximos da caridade. Percebemos que em todo o processo de ajuda, de toda a espécie de caridade, pode-se considerar que a dedicação é sempre indispensável.

Conclui-se que, o devotamento e a abnegação, por ocasião do socorro aos irmãos necessitados, atuam, sempre, em contraposição ao egoísmo. Tudo isso é uma bênção do Pai, porque assim agindo, aqueles que ajudam os outros estarão modificando seu possível comportamento egoísta, pela dedicação sincera de auxiliar. É um avanço, um crescimento espiritual que colhemos como um fruto beneplácito na presente encarnação.


Viver melhor é auxiliar sempre que necessário, pois assim estarão seguindo a prática do ensinamento sublime do "amar-vos uns aos outros", tão bem exemplificada pelo meigo Rabi da Galiléia. Deus que é Pai espera isso de todos os seus filhos, aos quais se dedica e coloca diante deles, as oportunidades para o serviço de ajuda ao próximo. Cabe aos filhos, em consonância com a bondade do Pai, ser caritativos e irmãos de todos os seus semelhantes, para poderem ser dignos da ajuda que também recebem do Alto.

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